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Pouco conhecida, sepse mata mais no Brasil PDF Imprimir E-mail
Muito letal, mas pouco conhecida, a sepse é, hoje, um dos maiores desafios ao sistema de saúde nacional, tanto público quanto privado. A resposta inflamatória exacerbada a uma infecção leva à morte em 33% dos casos no mundo. No Brasil, no entanto, o percentual é quase o dobro, 58%, segundo dados do Instituto Latino-Americano de Sepse.

A situação não é muito melhor quando se leva em conta somente o setor privado. Nos hospitais particulares do país, a letalidade por sepse é de 51% contra 64% nas instituições públicas. Além de ser extremamente letal, a prevalência da doença também é alta: trata-se da quarta causa de morte, atrás de trauma, infarto e câncer. O assunto é tema do 13º Congresso de Terapia Intensiva, que começa hoje, no Rio, e vai até sábado.

— Há uma dificuldade por parte dos médicos de reconhecer a sepse em estágio inicial — aponta o clínico geral e especialista em terapia intensiva Fábio Miranda, presidente do congresso. — Não existe uma política de saúde por parte do governo para instruir médicos e população sobre o que é, como reconhecer e como tratar, a exemplo do que ocorre com Aids, câncer de mama e enfarte, por exemplo. A sepse é uma condição grave decorrente de uma infecção. Quando o organismo sofre com alguma infecção, libera substâncias que provocam uma inflamação localizada — uma reação que visa a neutralizar o agente agressor, uma
etapa para a cura. Em alguns casos, no entanto, essa reação é exagerada; as substâncias liberadas pelo organismo caem na corrente sanguínea e a inflamação se torna generalizada, tomando o organismo inteiro. Por isso, a sepse é também chamada de síndrome de resposta inflamatória.

Paciente acaba esperando muito por leito monitorado
O processo todo é rápido e a detecção e intervenção precoces são fundamentais para garantir a cura do paciente. Segundo o especialista, a mortalidade também é muito alta pela falta de leitos hospitalares em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), tanto nos hospitais privados, quanto nos públicos.

— São comuns os casos do paciente que se interna no hospital público para uma cirurgia, por exemplo, desenvolve uma pneumonia, a infecção mais comum em hospital, e, depois, sepse — exemplifica Miranda. — Esse sujeito deveria ter uma atenção especial e rápida para não piorar mais. Mas, como acaba ficando na enfermaria porque não tem vaga no CTI, acaba piorando muito. Quando a vaga enfim aparece, ele já está num estágio muito grave ou mesmo irreversível.

Em países desenvolvidos, segundo Miranda, a letalidade é mais baixa porque os médicos estão mais treinados a reconhecer rapidamente o problema e a estrutura hospitalar funciona melhor. No Brasil, há poucos leitos para pacientes graves, como mostra um levantamento feito há dois anos pelo especialista a partir de números do Sistema Único de Saúde (SUS).

Embora 80% da população se trate no sistema público, 55% dos leitos monitorados estão nos hospitais privados.

— Isso ocorre porque é um leito de alta complexidade e de custo muito elevado. Custa dez vezes mais que um leito de enfermaria — explica Miranda. — Ou seja, prejuízo para o hospital público e lucro para o privado.


O Globo  29/07/10
 
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