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Thiago Feres

Rio - O casamento de 48 anos entre a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), em Vila Isabel (Zona Norte), pode estar chegando ao fim. Sexta-feira, o Conselho Universitário se reúne para decidir sobre a autonomia plena para o hospital. A aprovação da medida abriria brecha para a instalação de fundações estatais de direito privado. Como consequência, alguns procedimentos gratuitos podem passar a ser cobrados.

A proposta foi apresentada pelo reitor da UERJ, Ricardo Vieralves. Com isso, o diretor do HUPE, Rodolfo Acatauassú, passaria a ter responsabilidade total pelas suas assinaturas e demais atitudes tomadas no comando do hospital.

Atualmente, a unidade possui apenas o que é chamado de autonomia parcial – financeira e administrativa – mas as decisões necessariamente precisam passar pelo crivo do reitor da UERJ. O Hospital Pedro Ernesto realiza tratamentos em 50 especialidades, faz aproximadamente 25 mil atendimentos por mês e possui um orçamento anual de R$ 175 milhões de reais.

Segundo o reitor da UERJ, o pedido de autonomia plena foi feito pelo próprio diretor do HUPE. No entanto, Rodolfo Acatauassú diz que não foi bem assim.

– Reclamamos quando a UERJ nos tirou um pregão eletrônico e quando desativou a nossa tesouraria. Pedimos de volta apenas um direito que já nos pertencia. Já temos alguma autonomia desde o ano de 1964 – destacou.

– Administrar um hospital não é a mesma coisa que uma universidade. Aqui, a vida humana está em risco 24 horas por dia.

Já Ricardo Vieralves tem uma outra versão.

– O Rodolfo pediu para que eu ampliasse as responsabilidades do Hospital Pedro Ernesto. Só que chegou a um ponto que decidi não atender a solicitação. Se ele quer mais responsabilidades, terá que responder por isso. Não estou aqui para ficar assinando cheque em branco para ninguém – afirmou.

Tanto Ricardo Vieralves quanto Rodolfo Acatauassú foram eleitos e não podem ser demitidos. O reitor diz que acredita no bom senso do Conselho Universitário.

– Acho que estou fazendo uma distribuição clara de responsabilidades no interior da universidade. Não posso acreditar que os conselheiros queiram para a UERJ uma figura de um imperador, que seja o centralizador de todas as decisões. Mas, caso eles reprovem a minuta, vou aprender administrar um hospital e o doutor Rodolfo vai trabalhar como o meu assistente. As coisas não podem continuar assim – reclamou.

O diretor do HUPE optou por não entrar em polêmica, mas ressaltou que o reitor não pode ocupar dois cargos dentro da instituição, o que impediria o cumprimento da promessa, feita em tom irônico, diga-se. Ele não defende a aprovação da minuta e acredita que as propostas precisam ser mais debatidas.

Sindicato também é contra
Representantes do Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Públicas Estaduais (SINTUPERJ) também não são favoráveis à aprovação do documento pelo Conselho Universitário. Além de não concordarem com a autonomia da unidade, eles temem as prováveis invasões das fundações estatais de direito privado. A chegada das fundações poderia provocar também a demissão de muitos funcionários do Hupe.

Diretor diz que atendimento pode piorar com a autonomia
O ditado é antigo: a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. E, mais uma vez, ele parece que vai se concretizar, já que o diretor do Hospital Universitário Pedro Ernesto, Rodolfo Acatauassú, admite que a população poderá sofrer com uma piora do atendimento, caso a UERJ aprove a autonomia.

– Não se mexe em time que está ganhando. É um processo lógico. Toda vez que mudamos a estrutura de uma unidade hospitalar, os problemas acontecem. Além disso, não sabemos o que nos espera – ressaltou.

O secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Alexandre Cardoso, responsável pela administração da universidade, estava em um compromisso externo quarta-feira. Através da sua assessoria de imprensa, informou que não comentaria o caso.

Já o reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Ricardo Vieralves, afirma que a mudança em nada prejudica o aprendizado dos alunos da instituição.

– O hospital vai continuar sendo utilizado pelos residentes, alunos e estagiários da área de saúde. Não há qualquer alteração nesse sentido – frisou

Somados, residentes e estagiários representam um quarto do quadro de funcionários do hospital, que é de 4 mil servidores.

Criada no ano de 1950, a unidade tornou-se Hospital-Escola em 1962, ainda sob o controle da extinta UEG (Universidade do Estado da Guanabara).

Pacientes elogiam atendimento e temem a troca
Os pacientes do Pedro Ernesto entrevistados na manhã de quarta-feira pelo JB lamentaram a possível aprovação da autonomia. Todos eles elogiaram muito o atendimento do Hospital-Escola, que chega a atrair gente de outros municípios.

– Sou moradora da Paty do Alferes e tive uma gravidez uma pouco complicada. A hipertensão fez com que o meu filho Sandro, de apenas 5 meses, nascesse prematuro. Fui muito bem atendida aqui e continuo sendo acompanhada.

O fato de ser gratuito contribuiu, já que não poderia pagar um atendimento particular – contou Selma Santana, 32.

Outra que recorre ao atendimento gratuito da unidade é a pensionista Leci Chagas, 65. Moradora de Realengo, ela sofre de diabetes e precisa comparecer mensalmente ao HUPE para buscar seringas e doses de insulina.

– Pelo menos, temos um hospital que presta um bom atendimento ao povo. Não teria dinheiro para fazer muitas viagens de Realengo até aqui por mês. Não sei o que vou fazer e nem como vou me tratar se tudo isso mudar – confessou.

A manicure Jussimar Raquel já passou por cinco cirurgias ao longo dos seus 35 anos de vida. Três delas foram feitas no Hospital Pedro Ernesto – duas cesarianas e uma retirada de pedras na vesícula, esta há 10 dias.

– Lógico que a gente não pensa em viver em hospital, mas fico triste e lamento saber que um joguinho político pode destruir o atendimento de uma unidade repleta de profissionais competentes – analisou.

Funcionários revoltados
O oficial de portaria Luiz Claudio de Andrade, 51 anos, 26 deles trabalhando no HUPE, confessou que considera um absurdo os episódios envolvendo a administração da unidade.

– Desde o primeiro dia em que eu pisei aqui, esse é pior reitor de que eu me lembro na administração do hospital. Por exemplo: é um desrespeito os funcionários mais antigos não participarem de decisões tão importantes para o futuro da unidade – reclamou.


04/02/10


 
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